20/01/2019

Curta: Visitando os Tukano-Dessana



Eu tinha a ideia de disponibilizar este meu curta-metragem no dia 1º, dia consagrado no Brasil à Confraternização Universal. Infelizmente no feriadão de início de ano a internet esteve muito ruim em Macapá e acabei precisando adiar os planos. Os dias seguintes só serviram para me mostrar como era urgente tornar público este meu filme - como todos sabem, também no dia 1º, o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, efetuou mudanças em relação à FUNAI (Fundação Nacional do Índio)  que colocaram em alerta todas as pessoas que se preocupam com a questão indígena em nosso país. Além de sair do âmbito do Ministério da Justiça e passar a responder ao novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a FUNAI também perdeu uma de suas principais atribuições: identificar, delimitar e demarcar terras indígenas, o que agora será decidido pelo Ministério da Agricultura. Este quadro levou o ex-presidente da FUNAI entre 1991 e 1993, o sertanista Sidney Possuelo, a declarar em entrevista à Folha de S.Paulo no dia 18 de janeiro: "A FUNAI morreu, foi extinta".

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Visitando os Tukano-Dessana é meu oitavo filme, sendo meu sétimo curta-metragem. O curta foi montado por mim em Belém no mês de abril de 2017 a partir de vídeos e fotos feitos com câmera digital (uma simples Nikon S3500) em 17 de novembro de 2015 durante passeio turístico pelo Rio Negro, nas proximidades de Manaus, que incluiu uma visita a uma aldeia indígena localizada em uma ilha. Ali, nós, turistas de várias partes do Brasil e do mundo, pudemos ter contato com a cultura ancestral deste povo indígena, conhecendo seus cantos e danças tradicionais, concluindo a visita numa celebração onde todos, irmanados, dançamos juntos (incluindo um trecho, quase ao final, filmado em câmera subjetiva).


Depois os Tukano nos ofereceram piranha e jacaré assados diretamente sobre a brasa. Ao final da visita, fomos convidados para ver e adquirir peças de artesanato, nas quais era possível ver lado a lado elementos da cultura original deste povo e a incorporação de símbolos de outras culturas – como o filtro dos sonhos, criação de povos indígenas norte-americanos. Foi a primeira vez que contatei indígenas em seu próprio ambiente. Devo dizer que minha passagem pela ilha, por mais breve que tenha sido, não deixou de me produzir forte impacto, a ponto de me levar a repensar nossa responsabilidade, enquanto Humanidade, com os rumos do planeta e também sobre a importância de aprender a conviver com as diferenças.

Na ilha visitada, os índios do povo Tukano-Dessana mantêm uma aldeia reduzida, para receber turistas, sendo o turismo uma das fontes de renda da tribo, ao lado do artesanato. Numa ilha próxima, também visitada no passeio, outros índios da mesma etnia convivem em harmonia com diversos animais da fauna amazônica – crianças indígenas brincam com filhotes de jacaré e com preguiças adultas.

Os Tukano-Dessana fazem parte do ramo Tukano oriental, entre os quais o casamento sempre é realizado entre um homem e uma mulher de povos diferentes (sistema denominado de exogamia linguística). Os filhos do casal, além de falarem o Tukano e o Dessana, idiomas dos pais, normalmente aprendem também o português e o nheengatu, uma evolução do idioma tupi falado na época do início da colonização do Brasil no século 16. Além disso, devido à proximidade com países como Venezuela e Colômbia, não raro os índios da região também dominam o espanhol. Esta situação de multilinguismo, em que cada indivíduo fala de três a cinco idiomas, é considerada única no mundo.

Montei o material filmado em 2015 quando me encontrava em Belém, em abril de 2017, pensando especificamente em ter um material novo para inscrever em festivais de cinema.

O curta Visitando os Tukano-Dessana estreou no Cine Tamoio Festival – 2ª edição, em São Gonçalo (RJ), em setembro de 2017. Posteriormente, desenvolveu uma inesperada carreira internacional, sendo selecionado por quatro festivais do exterior - o Cefalù Film Festival, de Palermo, Itália; o Darbhanga International Film Festival, de Darbhanga, Índia; o International Ecological Film Festival TO SAVE AND PRESERVE, emKhanty-Mansiysk, Rússia - diploma ao lado; e The Lift Off Sesssions, em Iver, Inglaterra. (Obs: como eu comento no meu artigo "Balanço de 2018", no exterior não necessariamente a seleção implica a exibição do filme, mas de todo modo não deixa de ser uma distinção digna de nota).

Aqui no Brasil, ele voltou a ser em exibido em junho, selecionado por edital da 6ª edição do evento EX_TENSÃO no Rio de Janeiro, e esteve novamente em um festival em novembro: a 3ª FRESTA - Mostra Audiovisual (Rio Grande, RS). Ele segue inscrito em diversos festivais no Brasil e no exterior, então esta lista ainda pode aumentar por algum tempo, até que se encerre a chamada 'janela' (o tempo em que festivais aceitam a inscrição de um filme, que geralmente vai até dois anos após sua finalização).


Eu, de cocar, ao lado de um indígena Tukano-Dessana

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